Perspectivas · 02
Sobre sucessão e silêncio.
Em empresas familiares, a sucessão raramente falha por causa da estratégia. Falha porque a conversa nunca aconteceu. O silêncio termina mais transições do que o mau planeamento.
O fundador da primeira geração é frequentemente o menos disposto a começar. A empresa foi construída em torno do seu discernimento, das suas relações e da sua disposição para assumir risco. Nomear um sucessor parece uma confissão. Muitos fundadores adiam a discussão durante anos, dizendo a si próprios que ainda há tempo, que a próxima geração não está pronta, ou que o mercado está instável. Cada uma destas afirmações pode ser verdadeira. Nenhuma justifica o silêncio.
A segunda geração raramente começa a conversa com mais facilidade. Levantar o tema pode parecer sugerir que o pai ou a mãe já não é indispensável. Em muitas culturas, isto raia o desrespeito. Por isso a próxima geração espera. E a empresa vai à deriva.
Entretanto, colaboradores, bancos, fornecedores e accionistas minoritários começam a formar as suas próprias suposições. Os negócios não esperam que as famílias estejam prontas. Quanto mais tempo dura o silêncio, maior é o risco que cria.
Quando a sucessão é finalmente abordada, raramente o é através de uma transição planeada. Mais frequentemente, chega através de uma crise: um evento de saúde súbito, uma venda forçada ou um conflito entre herdeiros. Em quase todos os casos, a conversa esteve disponível durante anos antes, e teria produzido um melhor resultado.
O papel de um presidente do conselho externo, de um conselheiro de confiança ou de um assessor sénior é muitas vezes começar a conversa que ninguém dentro da família quer começar. Não para escolher o sucessor. Não para impor uma solução. Apenas para colocar o tema na mesa e tornar normal discuti-lo.
A primeira conversa não é sobre escolher. É sobre reconhecer. Reconhecer que o fundador não liderará para sempre. Que a empresa continuará. Que a próxima geração merece um processo, não uma surpresa. A partir desta pequena abertura, tudo o resto pode ser planeado.
A maioria das famílias que conheci não era avessa a falar sobre sucessão. Estavam à espera de permissão para começar. Estavam à espera de que alguém fizesse a primeira pergunta sem julgamento.
A sucessão não é uma decisão única. É uma série de pequenas conversas ao longo dos anos. A parte mais difícil é a primeira. Depois disso, as famílias costumam encontrar o seu próprio ritmo.
Carlos Magalhães